12 de janeiro de 2018 às 08:57

Leandro Kall: o sofrimento de uma mãe um ano após o crime

Maria do Carmo nos recebeu em sua casa – onde tudo faz referência a Leandro. Foto: Genaro Caetano/Rádio São Luiz

No próximo domingo, 14, a morte do jovem Arthur Leandro Garcia Kall, assassinado aos 21 anos em frente à prefeitura de São Luiz Gonzaga, completa um ano. O autor do crime, na época com 17 anos, está internado no Centro de Atendimento Sócioeducativo, em Santo Ângelo, mas poderá ser solto no próximo dia 18, data de uma nova avaliação da Justiça.

Para ilustrar esse triste episódio que chocou a comunidade são-luizense, nossa reportagem abriu espaço para o desabafo de uma mãe que ainda vive na madrugada daquele trágico dia 14 de janeiro de 2017. Maria do Carmo, que nos recebeu em sua casa – onde tudo faz referência a Leandro – emocionada do início ao fim da entrevista, nos contou sobre como foram as horas que antecederam o crime e o que tem feito para suportar tanta dor.

Um ano da morte e as homenagens

A família e os amigos estão organizando uma carreata que sairá, às 20h, da frente da casa do jovem, no Bairro da Gruta, e seguirá até o Posto Shell. O trajeto será encerrado no Bairro Trinta, onde Leandro passou boa parte da infância. Depois, à meia-noite do dia 14, o grupo fará uma vigília em frente à Prefeitura (local onde ele foi morto) até às 3h30min, horário no qual o crime aconteceu. No domingo de manhã haverá uma missa em homenagem ao rapaz.

Confira a seguir a entrevista com a mãe de Leandro:

Como foi o dia anterior ao crime?

Minha sobrinha (Edilene Garcia) ia se formar em enfermagem no dia 14. No dia 13, ele acordou cedo e foi com o pai (Alairdes Kall) arrumar uma “taipa” em uma terrinha que a gente tem no Rincão de São Pedro pra levar os amigos e comemorar. Há muito tempo a gente já tentava tirar os jovens da cidade e levar pra lá. Eu tinha um medo, uma angústia assim que tu não queira saber.

Na volta de lá, eram umas sete horas da noite quando ele chegou bem faceiro, cumprimentou todo mundo. Estava muito feliz. Ele estava com as costinhas toda queimada de sol – eu passei o Aliviosol nele. Aí a gente ficou sentado ali fora até tarde e se preparando, pois no outro dia a gente ia pegar uma Van pra ir pra Santo Ângelo (formatura da prima).

Tínhamos feito uma carne assada ali fora, era verão. Aí ele veio e disse “mãe, vê uma calça pra mim”. E eu notei que tinha uma menina no carro com ele, mas eu não sabia quem era – ele sempre foi muito discreto – daí eu entrei e fui ver a calça pra ele.

Naquela noite ele voltou mais umas três vezes em casa. Na segunda todo mundo que estava ali ficou gritando “tchau, Leandro! Tchau, Leandro!”… E me deu uma coisa tão ruim. Fiquei pensando, “porque o Edilmar (primo), as gurias, todo mundo que estava ali ficou dando tchau, parece que se despedindo dele”. Aí eu olhei para ele, ele se virou pra mim – nós estávamos no meio do pátio – e eu disse “tchau, meu flho! Vai com Deus!”. E ele foi com Deus mesmo.

Onde a senhora estava quando recebeu a notícia?

Acordei eram duas e meia da manhã, com a amiguinha da Bárbara (Bárbara Kall, irmã de Leandro) na porta do quarto dizendo assim “Maria, tu vem aqui que tem um amigo do Leandro que quer muito falar contigo”. Quando eu cheguei aqui na cozinha o guri estava ajoelhado e só disse “vem comigo, Dona Maria! Aconteceu um acidente com o Leandro”.

Eu disse pra minha cunhada (Simone) “vamos juntos, porque eu não tenho coragem de sair e ir sozinha”. Sentei no banco de trás do carro e ela sentou na frente, aí ela pegou na minha mão e perguntou para o motorista – que era o Frank – “ele está consciente?” e ele disse “não”. Naquela hora eu pensei: “ele está morto”.

Quando eu cheguei vi que tinha três pessoas no chão chorando e que ele já estava morto. O doutor só dizia “a gente nunca está preparado”. E eu me neguei àquilo tudo, eu me negava a abraço. Eu não queria abraçar ninguém, porque quando eu abraçasse eu ia aceitar. E eu não ia aceitar. Eu não podia aceitar. Meu gurizinho, meu Deus do céu!

O médico queria ligar para o pai dele e eu não deixei, imagina tu sozinho lá no meio do mato (o pai tinha ficado na propriedade no Rincão de São Pedro) receber uma notícia dessas. O guri tinha trabalhado o dia inteiro com ele e de repente te ligam e dizem que mataram teu filho.

Consegui que meu cunhado e outro amigo do Alairdes fosse lá fora, buscar ele. Estava na casa do meu cunhado, quando ouvi o ronco da caminhoneta – sabe quando tu conhece aquele ronco – e eu pensei “terminou a minha família”.

Como tem sido desde então?

Banner de Leandro, fotos e documentos adornam sala da casa

Eu vivo lá naquele dia 14 de janeiro. Eu vivo nessa madrugada. Eu parei minha vida. Tenho muito pena da Bárbara. Ela tinha 13 anos na época, vai fazer 15 em agosto, e a gente ia fazer alguma coisa para ela, mas eu não tenho coragem nem de ir escolher as coisas.

Não tenho noção de horário. Nas festas de fim de ano a gente foi pra fora com a família, mas nem para as crianças conseguimos dizer Feliz Natal. Todo mundo nos respeita muito.

Essas datas de um ano, seis meses, me dá uma tristeza, pois parece que vai se apagando da memória das pessoas e eu luto, porque não posso deixar o meu Leandro ser esquecido.

Como estão o pai e a irmã de Leandro?

O Alairdes é uma pessoa muito fechada. Ele guarda para ele. Ele não consegue olhar a camiseta (com a foto de Leandro), ele não tem camiseta. Ele vai para o refúgio dele que é lá fora e fica sozinho lá, uma coisa que me preocupa bastante.

Faz um ano que ele não corta o cabelo, não faz a barba. E ele sempre foi uma pessoa que sente muito calor, então mandava quase raspar a cabeça. Agora tu olha para ele…

Eu e a Bárbara se a gente sentar nós só choramos. Ela ficou revoltada, hoje ela é bem séria, nervosa. Guarda muito pra ela também. Ficou muito irritada, não tolera nada. Ela gostava muito dos bichos, hoje ela não tem mais aquela magia. Há um bloqueio que afetou a personalidade dela.

Como era o Leandro?

Ele era um jovem como qualquer outro, ele era bom. Gostava muito de bicho, de criança, ele ajudava as pessoas no que ele podia. Trabalhava desde os 15 anos na Auto-elétrica São Jorge. Nunca saiu de lá, nunca teve problema.

Ele tinha uma adoração por aquele carro (opala verde, que virou um símbolo do jovem), por isso eu uso muito verde. O carro está na garagem da minha irmã e vai continuar com a família.

Ele tinha muitos amigos. Geralmente tu tem uns três ou quatro grandes amigos, mas quando eu vi aquela igreja esperando com toda aquela gente. Não pensava que ele tivesse tantos amigos.

Tinha sábados à tarde que ele estava cansado, mas chegavam os amigos dele e ele levantava assoviando arrumar o carro dos amigos. Ele tinha uma tatuagem nas costas que dizia “vamos viver nossa vida, pois temos tão pouco tempo”.

A senhora chegou buscar ajuda na religião?

Eu frequento o centro Espírita (Alan Kardec). Nós éramos da Igreja Luterna, mas depois disso… Eu sempre tive um carinho pelo espiritismo, sabe. E hoje, se eu não frequentar o centro Espírita, se eu não acreditar que existe outra vida, não tem motivo. Ou tu se dá um tiro, ou se enforca, porque se não há outra vida, o que eu to fazendo aqui?

Lá sempre me dizem, “Dona Maria, quem sabe a senhora passou por isso pra ajudar ele evoluir espiritualmente”. É a única coisa que me conforta um pouquinho. Mas tem horas assim que nem isso ajuda, sabe? Dá um desespero! Eu vivo desesperada!

O que a senhora mais usa como escudo nessa situação?

Luzes verdes lembram a cor do carro de Leandro

Quando eu estou muito desesperada, sempre tem uma homenagem – apesar de que essa de um ano vai ser bem difícil pra mim – mas me da ânimo fazer ensopado, cachorro-quente e distribuir para as pessoas. Fazer uma carreata com o rostinho dele.

Sempre que a gente está preparando chocolate (para as ações beneficentes) tem mais gente e aí parece que aquela tarde passa tão bem. O problema está na volta para casa, depois das homenagens é terrível. Tu te depara com a tua realidade de novo.
A visita dos amigos dele, que vem me contar as histórias. Eu sinto uma necessidade que eles estejam aqui e eles sempre vêm me ver.

A Justiça

Saber que a Justiça ainda mantém essa pessoa que fez isso com ele lá me ajuda, mas agora não posso mais entrar nas audiências. A única coisa que eu posso é parar lá na frente, em Santo Ângelo, e gritar, levar pessoas.

Recebi um ofício – olha só, eu digo que atirei pedra na cruz mil e quinhentas vezes – que eu, minha pessoa, causa um dano muito grave ao psicológico do adolescente (ele já completou 18 anos). Se ele soubesse a destruição que ele fez na minha vida e na vida de todos. Minha sobrinha acabou não tendo solenidade, ela só foi pra pegar o canudo que ela colocou junto com ele, no caixão. Não teve festa, ela não consegue ver ninguém de toga. Deixou um marco assim na nossa vida. Aí tu recebe um ofício dizendo isso. Me arrasa profundamente.

Como surgiu a página “Todos pela Justiça” no Facebook?

Foi uma ideia da Bárbara e de uma amiga dela. Uma ideia que deu certo. Ali eu conto as coisas pra ele. Eu desabafo ali. É onde eu me encontro com ele e coloco para fora.

O Opala

Sempre foi um sonho dele. Quando ele começou trabalhar comprou um Opala SS branco bem velho. Aí apareceu o negócio do Opala verde com um cara que, se não estou enganada, tinha tirado em um rifa. Ele comprou, mas tinha que refazer tudo.

O pai dele disse que ajudava ele refazer tudo, mas que se ele tirasse o carro do pátio antes dos 18 anos, ele nunca iria buscar o veículo. E ele ficou até tirar a carteira. Minha vizinha conta que quando a gente ia para o interior ele andava no pátio – ia até o portão e voltava. *aqui um dos poucos momentos em que ela esboça um sorriso.

A escolha por sepultá-lo no Limoeiro

Meu pai está enterrado lá. Eu até queria enterrar ele na cidade, mas naquele abismo eu lembro que o Alairdes disse pra mim “eu vou enterrar ele lá, porque tu sempre disse que teu pai foi o homem mais maravilhoso que tu conheceu e eu quero que teu filho fique ao lado desse homem maravilhoso”. Eu argumentei, “ele gosta da cidade, do agito”, mas ele me disse “não. A cidade matou ele. Eu quero ele em um lugar calmo, tranquilo”.

O futuro

O dia que não houver mais justiça, eu vou achar outra coisa pra fazer com o nome dele, mas enquanto eu tiver vida vou lembrar o Leandro com muito carinho. A gente quer ver se faz uma ONG, ou pra ajudar bichinhos, ou crianças, alguma coisa para ajudar.
Eu nunca vou desistir dele. Se tiver que caminhar a pé, de noite, na chuva, só eu lá com a fotinho dele. Eu vou estar lá. E sábado eu vou lá, não importa se vai ter muita gente. Eu vou estar lá. A mãe jamais vai desistir de ti.

Tem gente que acha que sou muito exagerada. Eu não sou exagerada, eu só amo demais.

Por Kelvin Morais/Rádio São Luiz