Crítico do isolamento total para conter o Coronavírus, ex-ministro Osmar Terra fala de sua experiência com outras epidemias e faz previsões sobre o cenário no RS

Em entrevista à Rádio São Luiz nesta segunda-feira, 6, o deputado e ex-ministro Osmar Terra (MDB/RS) abordou a questão da pandemia e a sua posição frente às medidas restritivas impostas para achatar a curva de contaminação no país.

Segundo Terra, “fui Secretário de Saúde do RS, coordenei a implantação do SUS no Estado e tenho uma boa experiência na área, tendo atuado durante o enfrentamento a três epidemias: de dengue, de febre amarela e de H1N1. Esta última, na época, nos pegou de surpresa, pois não sabíamos como o vírus se comportava. Já esse novo Coronavírus temos a experiência da China. Os cenários mostram que a epidemia começou com alguns casos, vindo a subir muito rápido, daí fazendo a curva e terminando”.

Conforme o ex-ministro, “existem dezenas de vírus no mundo, e temos anticorpos para muitos deles. Quanto ao H1N1, provavelmente 70% das pessoas tiveram contato com o vírus, e superaram sem sentir nada. Então, como se começa uma epidemia? Surge um vírus novo, e até ele ser descoberto já se espalhou, pois é um fenômeno da natureza. Ele foi descoberto em 31 de dezembro na China, mas muito provavelmente ele já teria se espalhado antes. E esse vírus tem a propagação mais rápida que o H1N1, então ele já estava circulando em pessoas assintomáticas, e esse é o segredo da propagação rápida do vírus: quando tem uma massa enorme de pessoas que não estão sentindo sintomas o vírus se espalha rapidamente. Os casos confirmados divulgados são apenas a ponta do iceberg, pois para cada caso confirmado devem ter centenas de outras pessoas contaminadas, sem sentir os sintomas, e que acabam transmitindo o vírus, o que faz ele se espalhar nessa velocidade”.

PREVISÃO DA TRAJETÓRIA – Segundo Terra, “o número de casos vai subindo numa velocidade muito grande até um determinado ponto onde para de crescer, estabiliza, e começa a descer. O tempo de epidemia é previsível: no H1N1 foram 13 semanas, na gripe espanhola também foram 13 semanas, então os vírus têm um padrão. Mas porque o contágio dele cai? Porque de tanto contaminar gente que chega a um determinado momento em que mais de 50% da população estará contaminada, e a curva para de crescer e se cria a chamada ‘imunidade de rebanho,’ onde o vírus começa a bater nas pessoas com anticorpos e começa a morrer, diminuindo a quantidade de novos casos. E a partir disso, em algumas semanas, a epidemia termina sozinha. E o que temos de fazer? Temos de proteger o grupo de risco. No H1N1 tínhamos que proteger as grávidas e os obesos, assim como jovens. Agora, temos de proteger as pessoas com doenças crônicas e as maiores de 60 anos para fazer a quarentena e evitar o contágio”.

Sobre a forma de quarentena proposta em diversos países da Europa e que está sendo seguida no Brasil, o ex-ministro foi categórico: “Tem países na Europa que a quarentena só aumentou o número de casos, pois os assintomáticos ficam em isolamento em casa e acabam por transmitir aos seus parentes, como avós, também confinados. A televisão deixou todos em pânico. Na época do H1N1 tivemos de tirar o pânico, pois é muito mais fácil de assustar as pessoas e essa atitude tem de ser radical, pois tem de parecer que o governo está muito preocupado, fechando tudo como se estivesse fazendo tudo o que pode. Não fiz isso na H1N1 porque não adianta nada. Quando pegamos a epidemia, a curva no final de junho começou a subir, e em dez dias começariam as férias escolares. E vimos que nas férias escolares aumentaram o número de casos, pois as crianças estando em casa acabaram saindo brincar com os amigos e se contaminaram. E esse contágio não irá diminuir se fechar lojas. Digo que aqui em Brasília os supermercados viraram shoppings, com grande circulação de pessoas sem ninguém usando máscaras. É uma área de contágio enorme, e afirmo que se as lojas estivessem abertas e organizadas, com as pessoas higienizando o ambiente, daria uma proteção que diminuiria muito o risco de contágio”.

Sobre o modelo de quarentena imposto hoje, Terra destacou: “Posso dizer que essas medidas não ajudam em nada. Não existem pesquisas que indiquem que a quarentena auxilie. Na Europa sitiaram as pessoas em casa, mas os casos foram aumentando. O pessoal que se contamina apresenta sintomas em 7 dias, e 12 dias depois que todo mundo estava em casa triplicou o número de casos? Ocorreu porque o contágio estava dentro de casa, pelo menino que não sentia nenhuma sintoma e que acabou por contaminar a família inteira”.

O CORONAVÍRUS NO RS – Conforme o ex-ministro, “nós não vamos entrar no inverno com a epidemia. Ela iniciou aqui no começo de março, e durará 13 semanas. Já vimos que não adianta tentar achatar a curva, pois todos os países que tentaram não funcionou. As exceções foram na Coreia, Japão, Israel, onde controlaram sem fechar os estabelecimentos, fazendo testagens na população e protegendo os grupos de risco. Os Estados Unidos têm capacidade de recuperação boa, mas e o Brasil? Eu gostaria que me mostrassem algum trabalho atestando que fechar tudo evitaria a epidemia. Mas não tem! Tudo o que se vê é que se aumenta a epidemia. E todo o sacrifício e o sofrimento que vai vir com esse fechamento? As pessoas nas periferias, acha que têm condições de fazer quarentena? Quem está fazendo quarentena é a classe média. Esse pessoal do Empire College (Inglaterra), que fez o estudo da pandemia e botou medo em todo mundo já foi desmentido, pois acabaram fazendo a conta errada e estão ferrando com a economia do mundo inteiro”.

Ainda segundo Terra, “estou aqui para orientar o ministro (Luiz Henrique Mandetta, da Saúde) de que ele está errado; já vivi esse tipo de problema, e não é crítica porque não quero Ministério. Eu quero que esse Governo dê certo, e sigo a posição do presidente de que não podemos quebrar a economia. E digo mais: vai morrer menos gente no RS de Coronavírus do que de gripe no inverno. Todo ano morrem entre 900 e 1100 pessoas de gripe no RS no inverno, e digo que o Coronavírus não vai chegar nestes números. Por isso, não é motivo para quebrar o mundo. Quanta gente já perdeu o emprego ficando em casa aí em São Luiz Gonzaga? A epidemia vai chegar no pico na terceira semana de abril, e não em junho, como estão prevendo. E outra coisa: a epidemia no RS vai terminar no final de maio, e não entrará no inverno. Como o vírus já está em toda a parte, e por ser uma força da natureza, as pessoas em algum momento vão ter contato com ele e criar a já chamada imunidade de rebanho’. É o processo normal que ocorre em cenários de epidemia que já ocorreu antes e agora não será diferente”, concluiu Terra.

Fonte: Rádio São Luiz

Foto: Divulgação