Adolescência e redes sociais: como acompanhar os jovens no meio digital?

Foto: Canva/Ilustrativa
As redes sociais e a internet estão presentes no cotidiano dos jovens. A sociedade contemporânea está cada vez mais envolvida com tecnologias digitais que servem para comunicação, pesquisa, trabalho e até acesso a serviços essenciais. Porém, quando se trata de crianças e adolescentes, existe certo nível de atenção e cuidado com relação ao uso dessas tecnologias e aos conteúdos consumidos.
Nas últimas semanas, o debate em torno das estratégias para acompanhar o uso de redes sociais e da internet por jovens cresceu devido à série Adolescência, produção da Netflix que aborda, entre outros temas, os impactos do universo digital na vida de jovens. Em entrevista à Rádio São Luiz FM 100.9, Maria Mello, pesquisadora e coordenadora do eixo digital do Instituto Alana, e Jana Gonçalves Zappe, professora de psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), comentam sobre alternativas para lidar com o tema.
Receba nossas notícias pelo WhatsApp
Jornalista e mestre em comunicação pela Universidade de Brasília (UNB), Maria Mello explica que o trabalho do Instituto Alana está ligado à proteção das infâncias e adolescências e de seus direitos. “A premissa do nosso trabalho é de que as crianças e adolescentes devem e podem estar neste ambiente, desde que os seus direitos estejam salvaguardados”, pontua.
Para Maria, é preciso fortalecer as redes de apoio aos familiares para lidar com as questões que envolvem a presença dos jovens na internet. Segundo ela, sociedade, escolas e governos precisam assumir suas responsabilidades em garantir a proteção desse público no ambiente digital.
Professora universitária, Jana possui como áreas de pesquisa e trabalho a questão da adolescência e identificação de comportamentos de risco. Atualmente, ela também coordena a Rede de Estudos sobre Desenvolvimento na Infância, Adolescência e Juventude (REDIJUV).
Jana conta que após o lançamento da série, diversas pessoas a procuraram para conversar sobre o assunto. “De fato é um problema contemporâneo. Como vamos acompanhar os adolescentes nesse ambiente da internet e das redes sociais?”, comenta a pesquisadora da UFSM.
Os temas em debate
Ambas as especialistas enfatizam que a busca por caminhos deve ser um esforço coletivo e baseado no diálogo, em especial, com os próprios adolescentes. “Não existe uma fórmula que possa servir para toda e qualquer situação, mas precisamos, na adolescência, poder transitar entre estar disponível e acompanhar – saber onde os adolescentes estão circulando, com quem eles estão se relacionando, virtualmente e presencialmente – e, ao mesmo tempo, oferecer um pouco de liberdade, de privacidade na medida em que eles possam desenvolver a própria autonomia”, descreve Jana Zappe.
De acordo com Maria, a série da Netflix também ajuda a chamar atenção para outros temas, como o bullying, a violência de gênero e a construção de uma masculinidade tóxica no ambiente digital. Segundo ela, as empresas de tecnologia e redes sociais também devem ser responsabilizadas.
“Existe um design que é feito propositalmente para chamar atenção das pessoas e aumentar a presença das pessoas nesses espaços. Isso afeta todos os usuários e muito mais as crianças e adolescentes, porque estão em um estágio muito delicado do seu desenvolvimento”, explica a pesquisadora do Instituto Alana.
Como mãe de uma criança de 7 anos, Maria utiliza a própria experiência também como exemplo de como, com o passar dos anos, alguns fatores levam os pais a se distanciar dos filhos. “Nossa tendência é achar que não precisa mais estar tão perto, que não precisa adequar a nossa linguagem”, alerta.
Diálogo e plataformas
Jana ressalta que a falta de abertura de diálogo pode dificultar com que adolescentes comuniquem situações de risco que identifiquem nas redes sociais. A professora pondera que não se trata de impor regras ou proibições, mas construir uma relação horizontal de confiança.
“Cada pai, mãe, avó, cada familiar e educador tem a condições de conhecer o seu filho ou aluno e identificar o que é protetivo e o que pode ser risco”, complementa a professora da UFSM. Para ela, a melhor resposta sobre como lidar com essas situações podem ser alcançadas em conversas com os jovens e adolescentes.
Maria também recorda que as tecnologias oferecem diversas possibilidades de uso, porém, o que costuma predominar são lógicas de consumo, onde conteúdos violentos por vezes geram maior engajamento para as próprias redes. Do ponto de vista das escolas, a pesquisadora indica a importância dessas instituições também promoverem a educação midiática e de políticas públicas de regulação das plataformas no Brasil.
“Vale pensar que já fomos adolescentes um dia. Precisamos também de um olhar cuidadoso e carinhoso, de uma escuta que seja aberta. O diálogo é imprescindível como maneira de fazer minimamente frente a todo esse sistema que é muito assimétrico. Nós (pais e familiares) somos o elo mais fraco dessa corrente, mas é muito importante que a gente esteja presente e fazendo essa luta”, enfatiza Maria.
Fonte: Rádio São Luiz



