400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis; data marca transformações históricas e culturais na região e no RS

Ruínas de São Miguel das Missões; principal vestígio material do período das Missões – Foto: Agência Eleita | Ascom/Secretaria do Turismo de São Miguel das Missões

Era 3 de maio de 1626, quando o padre Roque Gonzales cruzou o Rio Uruguai, no local chamado de Santo Izidro, no interior do atual município de São Nicolau. Esse momento marca a chegada dos padres da Companhia de Jesus ao território do Tape e o início das reduções jesuíticas guarani, parte do processo de evangelização e colonização das terras do atual Rio Grande do Sul. Em 2026, completam-se 400 anos desse processo que transformou modos de vida e moldou culturas e identidades.

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Durante muitos séculos, as terras do Rio Grande do Sul foram habitadas por povos milenares, entre eles, os Gês pampeanos e o povo Guarani. Fundada em 1540, o padre Ignácio de Loyola fundou a Ordem dos Jesuítas, vinculada à Igreja Católica e ao Reino da Espanha. O objetivo era auxiliar no processo de domínio do território das Américas, invadido por portugueses e espanhóis a partir do século XV, promovendo a evangelização ou “conquista espiritual” dos povos originários ou ameríndios.

O chamado Tratado de Tordesilhas (1494) dividiu o território da América e destinou o território do Rio Grande do Sul à Coroa Espanhola. Para a Companhia de Jesus, foi destinada uma área de 700 mil km², desde o sul do Mato Grosso e Paraguai, até parte da Argentina.

Nascido na Província Jesuítica do Paraguai, fundada em 1607, Roque Gonzales falava a língua guarani e foi responsável por liderar a fundação de diversas reduções no chamado 1° período jesuítico na região das Missões (1609-1638). Ao cruzar o Rio Uruguai e adentar no território do Rio Grande do Sul, o missionário fundou as reduções de São Nicolau (1626), de Candelária (1627), de Assunção do Ijuí e de Todos os Santos de Caaró (1628).

O modelo adotado nas reduções jesuíticas-guaranis tinha como foco a religiosidade. Ao mesmo tempo em que protegiam as comunidades guarani dos regimes de servidão da “mita” e da “encomienda” e do genocídio pelos bandeirantes, as Missões também representavam uma tentativa de “aculturação” e apagamento da identidade e dos modos de vida dos indígenas.

Resistência indígena

“É fundamental retomar aquilo que existia no passado e foi impedido de se desenvolver como vinha acontecendo há séculos. Quando os padres chegaram, os Guarani já estavam há mais de 2 mil anos no território”, aponta Tau Golin, historiador e pesquisador da história missioneira. Segundo ele, é preciso reconhecer também o papel dos indígenas na organização da vida nas reduções.

Ainda que muitos caciques e lideranças guarani tenham aderido ao projeto missioneiro, o processo de colonização não se deu de forma pacífica ou sem resistência. Um dos episódios que marcam essa tensão aconteceu em 15 de novembro de 1628, quando o padre Roque Gonzales foi assassinado na redução de Todos os Santos do Caaró, como resposta das disputar de poder com lideranças indígenas, especialmente, o cacique Nheçu.

Como reação à morte de Roque e dos também jesuítas Afonso Rodrigues e João de Castilhos, uma tropa militar foi organizada pela Coroa Espanhola para atacar e dizimar a aldeia de Nheçu. Nos últimos anos, iniciativas como as da Associação Cultural Nheçuanos e da Trilha da Integração Guarani-Jesuítica procuram contextualizar a resistência indígena da época e resgatar a história de Nheçu.

O final do 1° período jesuítico na região foi marcado pela destruição das reduções por bandeirantes paulistas, interessados em sequestrar e escravizar os indígenas que viviam nas Missões.

Sete Povos das Missões

O 2° período das reduções jesuíticas guaranis (1682-1756) foi marcado pela fundação dos chamados Sete Povos das Missões – São Borja (1682), São Nicolau (1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Miguel Arcanjo (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1706). Esse processo foi iniciado pelo padre Francisco Garcia, após atravessar o Rio Uruguai no território próximo ao atual município de São Borja.

A segunda fase do processo de evangelização dos indígenas da região é o mais conhecido e foi marcado pela diversificação das atividades realizadas nas reduções, espécies de cidades autossustentáveis com uma igreja e praça central e diversas construções no entorno.

Foram pelas Missões que o gado e a pecuária foram introduzidos no Rio Grande do Sul. Além disso, vestígios da época evidenciam também uma intensa produção cultural, com esculturas, cerâmicas, músicas e pinturas. Os Sete Povos em terras do Brasil, somados aos 15 da Argentina e aos 8 do Paraguai, integram aos conhecidos “30 Povos das Missões”.

Esse período descrito como “esplendor” do projeto da Companhia de Jesus começou a ser ameaçado a partir da assinatura do Tratado de Madri (1750), mudando o traçado de “domínio” dos territórios da América do Sul por Espanha e Portugal. A partir de então, o atual território do Rio Grande do Sul passou a pertencer à Coroa Portuguesa.

Os Jesuítas e guaranis ficaram descontentes com o tratado e com a imposição de abandonar as reduções dos Sete Povos. Esse impasse motivou o início da Guerra Guaranítica (1753-1756) que opôs os missioneiros contra os poderosos exércitos combinados de Espanha e Portugal. Um dos grandes responsáveis por resistir a essa nova agressão colonial foi o líder guarani Sepé Tiaraju. Apesar disso, os indígenas foram massacrados e junto com os padres tiveram que cruzar o Rio Uruguai e deixar o território do Rio Grande do Sul.

Legado e celebrações

Além dos vestígios materiais, principalmente no Sítio Arqueológico de São Miguel das Missões, a experiência missioneira influenciou a cultura regional e estadual. Na música, artistas como Pedro Ortaça, Noel Guarani, Jayme Caetano Braun e Cenair Maycá chamados de troncos missioneiros – foram responsáveis por cantar a história da região e denunciar desigualdades sociais, bem como a exclusão do povo guarani da sociedade gaúcha.

No contexto dos 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis, os municípios da região articulados na Associação dos Municípios das Missões (AMM) e na iniciativa do Grande Projeto Missões – em conjunto com o governo estadual – preparam uma série de atividades para relembrar e celebrar a história missioneira, o que inclui uma agenda intensa de eventos e investimentos avaliados em torno de R$ 46,7 milhões, por meio de convênios para obras ligadas ao turismo e infraestrutura regional.

Fonte: Rádio São Luiz