Ícone do site Rádio São Luiz FM 100.9

100 anos da Coluna Prestes: movimento que começou nas Missões marcou história do Brasil

Fuga de São Luiz Gonzaga inaugurou estratégia que consolidaria a Coluna Prestes – Foto: Reprodução

Há 100 anos, a região das Missões foi palco do início de um movimento que entrou para a história. A Coluna Prestes se formou como uma resposta ao contexto social e político da primeira metade do século XX, por volta de outubro de 1924. Liderada pelo então capitão do 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, Luiz Carlos Prestes, o movimento militar ficou conhecido por sua oposição ao governo de Artur Bernardes e por percorrer mais de 25 mil km pelo interior do Brasil.

Receba nossas notícias pelo WhatsApp

Na época, o país passava pelo regime oligárquico da República Velha, marcada pela política do “café com leite”, em alusão ao protagonismo do café e dos estados de São Paulo e Minas Gerais na condução do país. A Coluna Prestes surge a partir do protagonismo de jovens tenentes que buscavam reformas sociais, além de denunciar a miséria e as mazelas pela população, a corrupção no governo e a falta de representatividade política.

A marcha pelo interior do país envolveu estratégias militares e o apelo popular. Naquele período, o movimento “tenentista” gerava o descotentamento dos oficiais com as patentes mais baixas do Exército, que vinham das classes populares e eram mantidos em situação quase “análoga à escravidão”.. Entre outras pautas, a Coluna Prestes defendia a instituição do voto secreto e o ensino público para todos.

De acordo com o professor e historiador Anderson Amaral, o contexto regional da época era de uma economia baseada na pequena agricultura e comércio, com a grande maioria da população em uma situação precária. A maioria das pessoas não possui instrução e as casas não tinham energia elétrica.

O cerco em São Luiz Gonzaga

Um dos primeiros movimentos e vitórias da Coluna Prestes envolveu o rompimento de um cerco em São Luiz Gonzaga. Em dezembro de 1924, o governo enviou cerca de 14 mil homens para combater os revolucionários, que estavam há 60 dias no município, com objetivo de reunir mantimentos antes de marchar para o norte e encontrar outros companheiros paulistas que se juntaram ao movimento.

Foi a tática usada para sair de São Luiz Gonzaga que inaugurou a estratégia conhecida como “guerra de movimento”, que conferiu fama à Coluna e seu principal líder, Luiz Carlos Prestes. O modelo de combate praticado até aquela época era o de “guerra de posição”, no qual o Exército perseguia o inimigo, buscando-o encurralar em um ponto específico para o confronto.

Os governistas avançaram em sete diferentes frentes em direção à São Luiz Gonzaga, porém, não mantiveram vigia nos seus flancos. Avisado sobre o ataque, Prestes dividiu suas tropas em sete grupos distintos que saíram a cavalo e passaram pelos flancos das tropas do governo.

Anderson Amaral define o episódio da “fuga do anel de ferro”, como ficou conhecido, como símbolo das táticas de guerrilha da Coluna. “A fuga do anel de ferro é uma manobra militar sensacional. Prestes tinha batedores nas sete colunas que chegavam e aguardou o momento certo para que, na última noite antes de elas chegarem na cidade, ultrapassar com seus homens entre eessas colunas, em total silêncio à noite. Quando as colunas chegaram aqui não encontraram ninguém”, descreve o professor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga.

Um dos principais marcos da Coluna Prestes no município é a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, na esquina da Avenida Senador Pinheiro Machado com a Barão da Passagem. Durante o cerco, um grupo de senhoras católicas foi até a Igreja Matriz rezar junto ao padre Monsenhor Wolski, pedindo que não houvesse um combate e derramamento de sangue na cidade. Como promessa, elas ergueriam uma gruta na parte alta da cidade em homenagem à Nossa Senhora de Lourdes. Com a graça alcançada, a capela foi construída e ficou pronta em 1926, sendo um local de visitação de fieis e turistas.

Legados da Coluna Prestes

A Coluna Prestes teve início em 1924 e perdurou até 1927, quando já estava enfraquecida pela falta de apoio massivo da população e pela decisão de seus líderes de buscarem outras estratégias políticas. Ainda que não tenha tido resultados imediatos, o movimento ajudou a despertar a consciência social e chamar atenção para as desigualdades sociais no país. 

Para Anderson Amaral, ainda que o movimento tenentista e a Coluna Prestes não tenham tido total sucesso, serviram para questionar a situação de precariedade e falta de políticas educacionais do Brasil, por exemplo. “Esse movimento é muito importante para a história do Brasil, porque se não fosse se não fosse o tenentismo nós levaríamos muito mais tempo para chegar a um patamar que nós temos hoje de justiça social”, acrescenta o historiador.

A maior marcha militar da história do Brasil reuniu diversos rebeldes oriundos de quarteis da região das Missões, parte deles trabalhadores negros do setor ferroviário que foram tinham migrado para as cidades do Noroeste em busca de melhores condições de vida. Durante muito tempo, a presença de soldados negros foi apagada e invisibilizada da Coluna Prestes.

Outro grupo que foi marginalizado na historiografia oficial do movimento são as mulheres. Elas tiveram um papel notável na marcha e nas lutas políticas e sociais da época, exercendo funções que iam de enfermeiras e cozinheiras, até mensageiras e combatentes. Entre as principais mulheres que se destacaram estão Olga Benário Prestes, Maria Werneck de Castro, Elza Fernandes e Maria Rosa Machado.

Fonte: Rádio São Luiz

Sair da versão mobile