Dia do Historiador: profissionais destacam desafios da profissão e os 400 anos das Missões

Foto: Rede social Anderson Amaral/Sérgio Venturini

O Dia do Historiador, instituído no Brasil pela Lei nº 12.130/2009 em homenagem ao nascimento de Joaquim Nabuco, é celebrado em 19 de agosto. A data destaca a importância de profissionais que se dedicam à pesquisa histórica, à preservação documental e à divulgação de processos que ajudam a compreender a sociedade contemporânea. Na região das Missões, esse marco ganha especial relevância diante das comemorações dos 400 anos das reduções jesuítico-guaranis, consideradas o ponto de partida da formação do Rio Grande do Sul.

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O historiador Anderson Amaral, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga, destacou que sua escolha pela História surgiu do interesse em compreender os processos que moldaram o presente. Segundo ele, “o ser humano tem uma trajetória milenar, e eu sempre tive curiosidade em entender esses processos e por que hoje as coisas são como são”. Para Amaral, o maior desafio da profissão é conciliar a necessidade de pesquisa aprofundada com a falta de remuneração adequada. Ele observou que o historiador precisa recorrer ao magistério para garantir sustento e, assim, manter a atividade investigativa sem depender de retorno financeiro.

Outro obstáculo apontado por Amaral está ligado ao acesso às fontes. “Nós precisamos de apoio de famílias, de pessoas e de instituições, como o Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga, que é quem faz a salvaguarda dessa documentação”, explicou. O Instituto preserva acervos de órgãos públicos e de famílias locais, totalizando mais de três mil fotografias e documentos históricos que abrangem não apenas São Luiz Gonzaga, mas também municípios que antes pertenciam ao seu território, como Guarani das Missões, Serro Largo e Bossoroca. Para ele, esse material complementa os conteúdos dos livros didáticos e permite que a população conheça aspectos da história regional que não chegam às salas de aula.

Amaral também vinculou a atuação dos historiadores às comemorações dos 400 anos das Missões, em 2026. “Se o Rio Grande do Sul começa nas Missões e as Missões estão com 400 anos, o nosso Estado tem 400 anos. É a partir desse marco que construímos a nossa trajetória”, afirmou. O pesquisador ressaltou ainda que a curiosidade é elemento essencial ao ofício. Para ele, pessoas interessadas em genealogia familiar ou nas origens de sua comunidade já exercem, em certo grau, um papel de preservação histórica, que pode se aprofundar com orientação acadêmica ou institucional.

O professor e escritor Sérgio Venturini também refletiu sobre o significado da data. Autor de dez livros dedicados à história missioneira, à imigração italiana e a questões de fronteira, ele recordou que seu envolvimento com a área se intensificou a partir do ano 2000, quando começaram as discussões sobre os 500 anos do Brasil. Em 2001, propôs ao município de São Nicolau a instalação de uma cruz no Passo do Padre, ponto simbólico da chegada dos jesuítas. Posteriormente, integrou o projeto Rota Missões, experiência que consolidou sua produção histórica.

Venturini ressaltou que o início da história do Rio Grande do Sul está diretamente ligado à fundação das reduções. “As reduções jesuíticas guaranis surgiram em 1609 e, em 1626, Roque Gonzales atravessou o Rio Uruguai, dando início às povoações missioneiras. Isso ocorreu mais de um século antes da presença portuguesa em 1737”, explicou. Para ele, a sociedade formada nas reduções era marcada pela cooperação e pela organização coletiva, características que resultaram em qualidade de vida superior à de muitas populações indígenas e comparável à dos europeus da época. “Enquanto na Europa se trabalhava 12 horas por dia, aqui os indígenas trabalhavam seis horas e tinham moradia, vestuário e alimentação garantidos”, destacou.

Em sua análise, Venturini reforçou que conhecer o passado missioneiro é essencial para compreender os desafios atuais. Ele defendeu que a experiência das reduções, marcada pelo trabalho comunitário e pela solidariedade, deve servir como referência para a sociedade contemporânea. Também salientou que o trabalho dos jesuítas junto aos guaranis não pode ser confundido com escravidão, mas sim entendido como uma relação de cooperação que trouxe novas tecnologias e condições de cidadania aos povos indígenas integrados ao sistema das reduções.

Nesse contexto, a celebração do Dia do Historiador na região das Missões assume um significado que ultrapassa a valorização profissional. É também uma oportunidade para reforçar a preservação da memória, estimular novas pesquisas e fortalecer instituições que guardam o patrimônio documental. Ao resgatar e interpretar a trajetória missioneira, historiadores como Amaral e Venturini contribuem para que a identidade regional permaneça viva e acessível às futuras gerações.

Fonte: Rádio São Luiz